CAPÍTULO IV UM CLARÃO NA NOITE…

Um após outro, voltamos aos nossos postos. Regressei ao séall. — Onde estamos? — perguntei a Souilik.

— Qualquer lugar no Espaço. Bastante longe para nada recearmos, creio eu.

Aguardamos a explosão. — Dentro de um basike, não é?

— Não, mais tempo. Ela se dará dentro de um basike, mas nós só a veremos mais tarde, dentro de quatro ou cinco basikes, segundo a distância a que estamos da estrela, e que não sei precisamente qual é. Não se esqueça que a propagação da luz não é instantânea. E quanto as ondas sness, que se propagam dez vezes mais depressa, não creio que a explosão produza muitas. Podemos tentar captá-Ias.

Béranthon e Séfer preparavam os aparelhos registradores.

Nós aguardávamos. Tudo estava silencioso no ksill Apenas se ouvia o fraquíssimo zumbir dos motores auxiliares e o ligeiro zumbido do purificador de ar. Me sentei numa das confortáveis cadeiras e, fatigado, adormeci.

Fui acordado por um verdadeiro clamor. Abri os olhos.

Todas as lâmpadas estavam apagadas, mas uma fulgurante claridade, vinda do écran, recortava, em sombras, as silhuetas do hr'ben, do Sinzu e de Souilik.

Ofuscado, me voltei. Souilik, com os olhos protegidos pelo braço, manobrava um volante. A luz decresceu, filtrada. Agarrado aos braços da cadeira, eu observava este fantástico espetáculo, que era, em parte, obra minha: o renascimento de um sol!

Ao fundo do céu azul, uma mancha de luz, ainda ofuscante, apesar do filtro, crescia de segundo em segundo. Então surgiram línguas de fogo violáceo, estendendo-se, como imensos dedos, em três direções. O espetáculo era muito mais grandioso por não haver nenhuma outra estrela visível. Os pálidos clarões das galáxias distantes desapareceram com aquela irradiação.

— Por que não me acordou, Souilik? — gritei.

— Fomos surpreendidos! A explosão se produziu mais cedo do que pensávamos, o que significa que estamos mais perto do que julgávamos — demasiado perto, para bem dizer. Olhe para o detetor de radiações!

A agulha deslocava-se, aproximando-se pouco a pouco da. linha verde: perigo!

Impassível, Béranthon e Séfer vigiavam os. registradores.

— Atenção, partimos.

Senti o balanço da passagem para o ahun. O écran se escureceu. Pouco depois senti o estremecimento característico, mas o écran continuou obscuro. — Onde estamos?

— Onde quer que estejamos? No Espaço.

— Mas o sol? Extinguiu-se novamente?

Os meus três companheiros romperam a rir.

— Claro que não, ingênuo terrestre. Ultrapassamos simplesmente a zona que a sua luz atingiu. Observe bem: você vai ver o início da explosão.

Aguardamos em vão durante dois basikes. De repente, no negro profundo do Espaço, precisamente diante do brilho de uma galáxia, acendeu-se uma estrela verde.

— A explosão do kilsim! — exclamou Béranthon Talvez durante um ou dois segundos nada houve além de um brilho verde na noite. Depois, deslumbrante, apareceu a luz azul. Como estávamos consideravelmente mais longe, o seu diâmetro me pareceu pequeno. Revi os dedos de chamas, gigantescas lufadas de gás elevadas a uma fantástica temperatura.

Alargaram-se, fundiram-se, formaram uma corôa onde palpitaram durante um momento, todas as cores do espectro. E foi um segundo jorro, um terceiro, um décimo, um centésimo, sucedendo-se cada vez mais depressa, indo cada vez mais longe. A mancha de luz atingia agora, vista de tão longe, o dobro do diâmetro aparente do nosso sol. E a cada momento aumentava.

— Não deve existir rasto de Milsliks agora — disse calmamente Béranthon. Nem sequer dos seus planetas.

Souilik regulou o écran para o engrandecimento 100, colocando um novo filtro.

Toda a superfície do aparelho foi invadida por um mar borbulhante de fogo, onde se erguiam e abatiam, sem parar, volutas tão grandes como vários planetas. O diâmetro da estrela tinha ultrapassado agora o do seu antigo sistema solar, e todos os mundos que ela outrora iluminara tinham regressado ao seu seio, com as suas montanhas, os seus oceanos gelados, as suas possíveis ruínas humanas… e os seus Milsliks!

— Não, é de mais, Luz do Céu! É demasiado poder entre as mãos das criaturas! disse um jovem Hiss que acabava de entrar.

Souilik voltou-se, como picado por uma serpente.

— Como demasiado? Preferiria ver Ialthar extinto pelos Milsliks?

O jovem Hiss não respondeu. Foi a única vez que ouvi um Hiss pôr em dúvida a Grande Promessa. E, ironia do destino, foi Souilik, um dos raros agnósticos de Ella, que o fez calar-se.

A estrela sem nome estabilizava-se. A sua superfície ainda se agitava em ondas chamejantes de vez em quando, mas não aumentou mais. Passamos para o ahun, para a viagem de regresso.

Logo que Ella apareceu, Souilik, pelas ondas, lançou a nova. Assim, mesmo antes de atingirmos a atmosfera, fomos rodeados por uma escolta triunfal de centenas de ksills e pelo Tsalan. Quando amerrissamos no extremo do embarcadouro, todo o Conselho dos Sábios nos aguardava. E, lá ao fundo, três formas verticais agitavam os braços: Ulna, Essine e Beichit. A praia, a esplanada inferior, as vertentes das montanhas, estavam cobertas de uma multidão de Hiss — única multidão que jamais vi sobre este feliz planeta. Quando surgimos na carapaça do Sswinss rompeu, como uma trovoada, o hino que eu ouvira na sala do Conselho dos Mundos, no planeta Réssan. Era o canto de libertação de centenas de humanidades libertas das ameaças da Grande Noite e para as quais se abria um destino sem limites.

Penetramos na sala do Conselho, alquebrados pela fadiga e pela emoção. Souilik começou a fazer o seu relatório. Azzlem interrompeu docemente: — Não, Souilik, não. Os pormenores técnicos ficam para.amanhã. Hoje conte simplesmente como tudo se passou.

Cada um de nós fez um relato. Sob o domínio da emoção, eu soube encontrar as palavras necessárias para dar parte das minhas angústias, quando segurei o moderador e os segundos se escoavam tão depressa, ali, na superfície daquele sol morto. Sugeri a instalação de uma grua no Ssunnss. Fui ouvido como nunca o tinha sido na minha vida.

Depois parti com Ulna para casa. Fiquei oito dias completos em repouso, Souilik e Essine, Beichit e Séfer foram me ver. Os vizinhos também me visitaram e até Hiss que habitavam longe e que eu nunca vira. Relatei um número incalculável de vezes a nossa aventura. Na noite do oitavo dia, quando regressava do banho, um réob azul, a cor do Conselho, aterrou diante da minha casa. Assza, descendo dele, me disse simplesmente: — Slair, o segundo kilsim está pronto!

Começou então para mim a parte mais fantástica da minha vida. O plano dos Hiss era fazer, na Galáxia Maldita, uma mancha de luz, torpedeando sistemáticamente todos os sóis mortos nos arredores do primeiro que tínhamos reacendido. Assim, fiz parte de uma dezena de expedições, sem incidentes. A peça móvel era agora erguida por uma grua e o meu trabalho consistia apenas em manobrá-Ia. Por acordo tácito, os meus companheiros, tanto Hiss como Sinzus ou Hr'ben, deixaram para mim essa honra, se bem que com a ajuda da grua até uma mulher executaria a tarefa. De resto, as mulheres começaram a participar nas expedições de guerra nos planetas colonizados pelos Milsliks.

Em Marte as fábricas trabalhavam em cheio para construir outros ksills gigantes. A partir da quarta expedição saímos aos grupos de três. Na décima figuraram sete ksills — e sete sóis reacenderam-se simultaneamente Na décima primeira fomos. dez, mas,apenas cinco regressaram!

Me recordarei sempre disso. Tínhamos torpedeado um enorme sol e, apesar de os campos anti-gravíticos estarem no máximo, conseguimos sobreviver, partindo a tempo. Um Hiss da tripulação aproximou-se imprudentemente do extremo do círculo e, como o campo estava enfraquecido nos bordos, o nosso companheiro caiu sobre a superfície do sol morto, perecendo ingloriamente, sem que lhe pudéssemos valer, esmagado pelo seu próprio peso.

Erramos pelo Espaço, aguardando a explosão. A escuridão era completa. Na verdade, como o nosso primeiro torpedeamento remontava a pouco mais de seis meses, a luz de qualquer sol não tinha ainda atingido mais de seis meses-luz. E estes sóis. mortos estavam separados, em média, por distâncias dez vezes. maiores. Eu estava no séall, com Souilik, Ulna e Essine. Esta estava triste: o Hiss que tinha perecido, e cujo corpo ia ser pulverizado pela medonha explosão, era seu parente.

Permanecemos calados. O homem de vigia aos registradores entoava a sua monótona litania: «Sikan, snik. Tsénan, snik. Ojan; snik….

De repente vimo-lo debruçar-se, perscrutar um registador:

«Asénan mislik: sen, tsi, séron, stell, sidon…».

O registo das irradiações Milsliks acabava de passar de O a 5. Para os Hiss o perigo começava a 7 e para os hr'ben a 6! Havia Milsliks na vizinhança, longe de qualquer planeta E isto era, em si mesmo, um perigo e uma ameaça.

No entanto, desta vez nada se passou — nada para nós. A irradiação decresceu.

Alguns minutos depois fomos alcançados pela onda luminosa. O kilsim tinha funcionado uma vez mais.

Passando para o ahun, pousamos no planeta dos kaïens, que nos servia de quartel-general. Um outro ksill gigante, que era comandado por Akéion, já lá estava.

De um dos lados do imenso campo de aterragem tinha nascido uma pequena cidade cosmopolita, que abrigava as equipes encarregadas da conservação dos ksills. Os kaïens mostravam-se amistosos, mas reservados.

Esperamos. Dois outros ksills e os meus comandantes vieram fazer os relatórios.

Tudo era normal. Cerca de cinquenta sóis já tinham sido reacendidos, mas, como observou Beichit, isso era apenas um fraco brilho na noite, em relação aos milhares de estrelas mortas das Galáxias Malditas.

O tempo passou. A noite caiu, a noite de Sswft. Os seis outros ksills não regressavam. Não ficamos muito inquietos, visto que o limite de tempo ainda não fora atingido. Jantamos e fomos dormir. De manhã os quatro enormes corpos dos nossos ksills ainda estavam sozinhos no terreno.

Lá para o meio da manhã pousou um pequeno ksill proveniente de Ella. Conduzia Assza. A sua visita fez-nos parecer o tempo mais curto. Mas quando, da noite, nenhum dos engenhos tinha ainda regressado, a inquietação começou a nos atormentar. De comum acordo, decidimos que Souilik, Assza e eu velaríamos.até de madrugada.

Nos instalamos no penúltimo andar da torre de controle, onde os Hiss tinham instalado um posto de vigia. Por cima das nossas cabeças ouvíamos os pesados passos do kaïen que assegurava o tráfego das aeronaves do seu próprio mundo.

Assza sentou-se diante do posto emissor e tentou entrar em contacto com os ksills no momento de sua aproximação do planeta, Mas tantos aparelhos de ondas sness como os de ondas hertzianas continuavam silenciosos. Cerca da meia-noite Souilik tomou o seu lugar..Sentado num confortável divã, eu adormecia lentamente. Tudo estava obscuro, salvo a fraca claridade verde das lâmpadas de controle De repente apareceu no écran o rosto lívido de um Hiss, Brissan, o comandante do ksill n° 8. Pronunciou algumas palavras entrecortadas e ininteligíveis, após o que o écran se apagou.

Completamente desperto, me levantei e me coloquei atrás de Souilik, que manobrava febrilmente os botões de controle O écran iluminou-se mais uma vez, mas continuou branco.

— Que se passa, Souilik? — perguntei.

— Não sei. Nada de bom, certamente.

— Vamos — interrompeu Assza.

Corremos ao andar superior. Nos olhos pedunculados do kaïen surgiu um clarão de hostilidade quando nos viu entrar, mas que desapareceu quando reconheceu Souilik.

A pedido de Assza, pôs a funcionar o detetor espacial — de resto, um modelo sinzu aperfeiçoado — e sondou o céu. Este detetor é uma espécie de radar, utilizando as ondas sness. No écran surgiu uma mancha que se deslocava rapidamente — O n° 8 — exclamou Souilik. — Estará aqui dentro de alguns minutos. Deve estar já na atmosfera.

Voltamos a descer. Um a um, os potentes projetores acendiam-se nos quatro cantos do terreno, não para o ksill, que deles não precisava, mas para uma astronave kaïen que regressava de uma viagem interplanetária. Chegou pouco depois, enorme massa ovoide e deselegante. Mal se tinha imobilizado, surgiu o nosso ksill. Mas, em vez de descer verticalmente, caía obliquamente para o solo. Com o rosto tenso, Souilik olhava através do vidro.

— Em que pensa aquele Brissan? É doido, ou julga que está pilotando um réob? Por todos os Milsliks! Vem muito depressa, de qualquer maneira! Muito depressa! Ssiüh! O enorme engenho acabava de tocar no solo com uma velocidade ainda a mais de mil quilômetros por hora. A terra abria-se, saltava e a poeira rolava em vagas pesadas sob a luz dos projetores. Através desta bruma amarelada vimos o ksill saltar, cair, saltar de novo. Depois passou sobre a pista como uma gigantesca roda. Tocou ligeiramente no ksill n° 2 — o de Akéion —, passou entre o n° 1 e o n° 3 e esbarrou contra a astronave kaïen.

Corríamos já. Lentamente, a poeira caía. Do n° 3 acorriam os Hiss e os Sinzus.

Passamos diante do n° 1 e, sempre correndo, vi Essine na minha esquerda e Ulna, Beichit, Souilik e Assza na minha direita. A toda a velocidade acorriam os veículos kaïens com as equipes de socorro.

A astronave ardia. Contra ela, com o casco torcido, desfeito, jazia o n° 8, com três quartas partes destruídas. A portinhola esquerda de saída estava aberta, mas ninguém aparecia. Entramos no corredor, amolgado, subimos pelos tetos caídos, deslocamos alguns cadáveres de Hiss e de Sinzus e penetramos no séall. A luz brilhante perdurava e do fundo do ksill estripado subia ainda o zumbido dos motores.

Havia sete homens no séall; seis dentre eles estavam mortos. Brissan ainda vivia.

Reconheceu Souilik e Assza e murmurou: «Atenção, os Milsliks contra-atacam».

Depois expirou.

Entre a desordem das instalações demolidas e de aparelhos arrancados Souilik encontrou, numa banqueta, o livro de bordo.

Saímos de novo, deixando o lugar para a equipagem do n°3, que, metodicamente, procurou os sobreviventes. Finalmente encontraram um, uma rapariga Kren, com os quatro membros partidos. Foi imediatamente transportada ao hospital da base.

A astronave continuava a arder. Não sei que substâncias os kaïens empregam para aqueles engenhos, mas é eminentemente combustível e produz um enorme calor.

Pouco a pouco, o fogo foi extinto; voltamos pra torre de controle e reuniu-se imediatamente um conselho de guerra.

Resumidamente, eis o que nos disse a leitura do livro de bordo: o kilsim fora colocado na superfície de uma estrela morta. O ksill tinha aguardado a boa distância a explosão, que não se produziu. Brissan esperou ainda durante um espaço de tempo cinco vezes maior do que a duração normal. Nem sequer se sonhava em regressar para verificar o kilsim. No momento em que Brissan ia dar ordem para se passar para o ahun o ksill fora rodeado por Milsliks. Os raios térmicos varreram a ameaça, mas já três Hiss tinham sido gravemente atingidos.

Então Brissan, de acordo com o seu estado-maior, cometeu uma imprudência. Em vez de regressar para a base, aproximara-se do último planeta do sistema, que regurgitava de Milsliks. Pôde observar, na superfície, colunas de um tipo mais complicado do que aquelas que outrora destruíramos em Sete, de Kalvénault. O kilsim, na superfície da estrela, continuava a não funcionar e Brissan julgara que os Milsliks haviam encontrado o meio de impedir o seu funcionamento. Isso fazia supor que tinham sido advertidos dos seus efeitos, pois que os Milsliks mantinham, por meios desconhecidos, relações ultra-rápidas de sistema a sistema solar.

Brissan queria regressar. Afastou-se do planeta, a fim de passar para o ahun.

Então começaram a chover, através do Espaço, blocos de metal e Milsliks mortos, que principiaram a bater no casco do ksill, bem menos espesso que o de Ulna-ten-Sillon. Se bem que muito danificado, o ksill passou para o ahun, mas metade dos motores e da aparelhagem não funcionavam. As últimas palavras escritas no livro de bordo eram: «Base a vista. Descemos muito depressa».

Em vão aguardamos os outros ksills. Dos trezentos membros de seis tripulações, um só sobreviveu, a Kren Barassa, que, mais tarde, nos confirmou o relato do livro de bordo. Do seu lado, os kaïens tiveram oitenta e sete mortos na catástrofe.

Regressamos a Ella. Durante dois meses o Conselho dos Mundos estudou os novos dados do problema. Nós chegamos a esta conclusão (e digo «nós» porque desta vez participei da assembléia, não como Terrestre, mas como Hiss): para o futuro as expedições deviam ser efetuadas por ksills gigantes escoltados por uma multidão de pequenos ksills do tipo de Ulna-ten-Sillon, que destruiriam as colunas Milsliks nos planetas, enquanto o grande ksill largaria o kilsim sobre a estrela morta. Mas para afrontar sem grossas perdas os Milsliks os pequenos ksills deviam ser tripulados por Sinzus ou… Terrestres!

Загрузка...